Diferente da esteatose (que é metabólica), as hepatites virais são infecções que atacam diretamente o fígado. Hepatite B e C são as mais importantes em adultos — juntas, respondem por mais de 80% dos casos de câncer de fígado no mundo.
O pior: ambas podem ficar décadas sem sintomas. Quando os sintomas aparecem, o fígado já pode estar comprometido.
Hepatite B
Transmissão: contato com sangue e fluidos corporais (sexual, mãe-filho, agulhas compartilhadas, transfusão antes de 1992, tatuagens sem esterilização adequada).
Vacina: existe e é altamente eficaz. Faz parte do calendário vacinal do SUS desde 1998 para crianças e está disponível para adultos não vacinados.
Evolução:
- Hepatite B aguda → maioria se cura espontaneamente (90% dos adultos)
- Hepatite B crônica → 10% dos adultos infectados evoluem para infecção crônica
- Crônica → 20-30% evoluem para cirrose em 10-20 anos
- Cirrose por hepatite B → risco elevado de câncer de fígado (CHC)
Tratamento: não cura completamente na maioria dos casos, mas controla a replicação viral com medicamentos orais de uso contínuo. O tratamento reduz drasticamente o risco de cirrose e câncer.
Quem testar: - Gestantes (obrigatório)
- Pessoas com múltiplos parceiros sexuais
- Usuários de drogas injetáveis
- Profissionais de saúde
- Contatos domiciliares de portadores
- Imunossuprimidos
- Qualquer pessoa com alteração de TGO/TGP sem causa definida
Hepatite C
Transmissão: principalmente contato com sangue contaminado. Transmissão sexual é rara (ao contrário da hepatite B). A maioria dos casos hoje é em pessoas que receberam transfusão antes de 1992 (quando não havia teste obrigatório).
Vacina: não existe. A prevenção é evitar exposição a sangue contaminado.
Evolução: - Hepatite C aguda → minoria tem sintomas (75% assintomáticos)
- Hepatite C crônica → 50-80% dos infectados evoluem para infecção crônica
- Crônica → 20-30% evoluem para cirrose em 20-30 anos
- Cirrose → 1-4% ao ano desenvolvem câncer de fígado
Tratamento em 2026: cura em mais de 95% dos casos com antivirais de ação direta (DAA) — comprimidos orais por 8 a 12 semanas, com poucos efeitos colaterais. O SUS oferece o tratamento gratuitamente.
Quem testar (recomendação 2026): - Pessoas nascidas entre 1945 e 1975 (coorte de maior prevalência)
- Transfusão ou cirurgia antes de 1992
- Usuários de drogas (atuais ou passados)
- Pessoas submetidas a hemodiálise
- Profissionais de saúde com acidente perfurocortante
- Qualquer pessoa com alteração de TGO/TGP sem causa definida
- Brasil recomenda testagem universal uma vez na vida
Como diferenciar B e C?
| Característica | Hepatite B | Hepatite C |
|—|—|
| Vacina | Sim | Não |
| Transmissão sexual | Sim | Rara |
| Cronificação | 10% (adultos) | 50-80% |
| Cura | Rara (controle) | > 95% |
| Tratamento | Oral contínuo | 8-12 semanas |
| Câncer de fígado | Sim, risco alto | Sim, risco alto |
O exame que muda tudo
Hepatites B e C têm diagnóstico simples (exame de sangue), tratamento disponível no SUS e — na hepatite C — cura em mais de 95% dos casos.
O problema é que a maioria das pessoas nunca testou. A OMS estima que 80% dos portadores de hepatite C no mundo não sabem que têm a doença.
Se o Brasil recomenda testagem universal para hepatite C uma vez na vida, por que você ainda não fez o teste?
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Dra. Cristiane Tiburtino | Gastroenterologista e Hepatologista | CRM-PB 7720 | RQE 7341 / 7598