Câncer de estômago (adenocarcinoma gástrico) é o quarto tipo de câncer mais comum no mundo e a segunda maior causa de morte por câncer. No Brasil, estima-se mais de 21 mil casos novos por ano.
O problema: quando os sintomas aparecem, muitas vezes o câncer já está em estágio avançado. A prevenção e o diagnóstico precoce são as únicas armas reais contra essa doença.
Fatores de risco
Os mais importantes:
Fator Risco
H. pylori Aumenta em 2-6x o risco. Principal causa evitável
Tabagismo Aumenta em 2x o risco
Histórico familiar Parente de 1º grau com câncer gástrico = risco 2-3x maior
Dieta rica em sal e conservas Carnes processadas, alimentos defumados, sal em excesso
Álcool Consumo pesado aumenta risco
Obesidade Risco moderado, mas consistente
Gastrite atrófica / metaplasia intestinal Condições pré-cancerosas
Doença de Menétrier / anemia perniciosa Condições associadas
Fatores protetores:
- Dieta rica em frutas e vegetais frescos
- Tratamento do H. pylori (reduz risco em 30-50%)
- Evitar tabagismo e álcool
Sintomas
O câncer gástrico inicial é assintomático na maioria dos casos. Quando causa sintomas, eles são inespecíficos:
Sintomas iniciais (fase I-II): - Dor ou desconforto na boca do estômago
- Sensação de estufamento após comer pouco
- Náusea leve
- Perda de apetite
- Azia ou indigestão persistente
Sintomas tardios (fase III-IV): - Perda de peso significativa
- Dor abdominal intensa e constante
- Vômitos (pode ser com sangue)
- Dificuldade para engolir (disfagia)
- Fezes escuras (melena)
- Anemia ferropriva inexplicada
- Massa palpável no abdômen
- Ascite (barriga d’água)
Quem deve fazer endoscopia de rastreio?
Diferente do câncer de cólon (que tem rastreio populacional com colonoscopia), o câncer gástrico não tem rastreio universal. A endoscopia é recomendada para grupos de risco:
Rastreio recomendado: - Histórico familiar de câncer gástrico em parente de 1º grau (pai, mãe, irmão)
- Gastrite atrófica ou metaplasia intestinal confirmada por biópsia
- Doença de Menétrier
- Pólipos gástricos adenomatosos
- Síndromes genéticas (Lynch, CDH1, polipose adenomatosa familiar)
- Após ressecção endoscópica de lesão gástrica pré-maligna
Considerar rastreio: - Imigrantes de regiões de alta prevalência (Ásia, América Central, Europa Oriental)
- Pacientes com anemia ferropriva inexplicada
- Tabagistas pesados há mais de 20 anos
O intervalo do rastreio depende do achado endoscópico, geralmente 1-3 anos.
A cascata de Correa
O câncer gástrico não surge do nada. Ele segue uma sequência conhecida como cascata de Correa:
Mucosa normal → Gastrite crônica → Atrofia → Metaplasia intestinal → Displasia → Adenocarcinoma
Essa progressão leva décadas. Cada estágio é uma janela de oportunidade para intervir e interromper a progressão.
A erradicação do H. pylori é a intervenção mais eficaz para interromper essa cascata. Em pacientes com gastrite atrófica ou metaplasia, o acompanhamento endoscópico periódico permite detectar a displasia (lesão pré-cancerosa) antes da transformação maligna.
Diagnóstico precoce: a vantagem do estágio inicial
O estadiamento é o fator mais importante para o prognóstico:
Estágio Sobrevida em 5 anos
I (precoce, restrito à mucosa) > 90%
II (invasão muscular) 60-70%
III (linfonodos regionais) 30-40%
IV (metástases a distância) < 10%
A diferença entre o estágio I e o IV é a diferença entre cura e doença incurável. E o único exame que detecta o estágio I é a endoscopia.
Prevenção na prática - Trate o H. pylori: se você tem diagnóstico confirmado, tratar reduz o risco de câncer gástrico em 30-50%
- Pare de fumar: o risco cai gradualmente após parar (leva 10-15 anos para voltar ao de um não fumante)
- Reduza sal e conservas: limite carnes processadas (linguiça, bacon, presunto, salsicha)
- Aumente consumo de vegetais frescos: efeito protetor consistente em estudos populacionais
- Endoscopia se tem história familiar: a partir dos 40-45 anos (ou 10 anos antes da idade do diagnóstico do parente afetado)
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Endoscopia digestiva alta com detecção precoce, teste de H. pylori e acompanhamento de lesões pré-cancerosas.
Dra. Cristiane Tiburtino | Gastroenterologista e Hepatologista | CRM-PB 7720 | RQE 7341 / 7598