Gastrite é uma daquelas palavras que todo mundo usa, mas poucos entendem de verdade. Dói o estômago? “É gastrite.” Passou mal depois de comer? “É gastrite.” Ansioso? “Gastite nervosa.”
A verdade é que gastrite tem um significado médico específico: inflamação comprovada da mucosa do estômago. E nem toda dor na barriga é gastrite.
O que é gastrite, exatamente?
Gastrite é a inflamação da mucosa que reveste o estômago por dentro. Pode ser aguda (súbita, intensa) ou crônica (lenta, progressiva, muitas vezes silenciosa).
Importante: gastrite não é a mesma coisa que dispepsia funcional (dor ou desconforto no estômago sem inflamação visível). Muita gente trata “gastrite” quando na verdade tem dispepsia — e o tratamento é diferente.
As causas reais
Causa % dos casos
H. pylori (bactéria) 60-70%
AINEs (anti-inflamatórios) 15-20%
Álcool 5-10%
Autoimune (gastrite atrófica) 2-5%
Estresse severo (agudo) Raro
Contra o senso comum, comida apimentada, café, glúten e lactose não causam gastrite. Podem piorar os sintomas em quem já tem inflamação, mas não são a causa.
H. pylori: o grande vilão
O Helicobacter pylori é uma bactéria que vive no estômago de cerca de 50% da população mundial. Na maioria das pessoas, não causa problemas. Mas em parte dos infectados, ela provoca inflamação crônica que pode levar a:
- Gastrite crônica
- Úlcera péptica
- Atrofia gástrica
- Linfoma MALT
- Adenocarcinoma gástrico
O diagnóstico é simples: teste respiratório, teste de fezes ou biópsia na endoscopia.
O tratamento dura 10-14 dias com antibióticos específicos. A taxa de sucesso na primeira tentativa é de 80-90% — mas precisa ser feito corretamente, com os medicamentos certos e na dose certa.
Sintomas típicos
Gastrite não tem sintomas exclusivos. Muitos pacientes são assintomáticos (especialmente na gastrite crônica). Os sintomas mais comuns incluem: - Dor ou queimação na parte superior do abdômen (boca do estômago)
- Sensação de estufamento após comer pouco
- Náusea
- Perda de apetite
- Arroto frequente
Sinais de alarme (endoscopia urgente): - Sangue no vômito (hematêmese)
- Fezes escuras, pastosas (melena)
- Perda de peso inexplicada
- Anemia
- Dificuldade para engolir
Endoscopia: quando fazer?
A endoscopia digestiva alta é o único exame que confirma o diagnóstico de gastrite. Ela permite: - Visualizar a mucosa do estômago
- Classificar o tipo de gastrite
- Coletar biópsias (para H. pylori, metaplasia, atrofia)
Indicações: - Qualquer sinal de alarme
- Idade acima de 45 anos (rastreio de câncer)
- Sintomas persistentes por mais de 4 semanas
- Histórico familiar de câncer gástrico
Tratamento baseado na causa
Gastrite não se trata com “chá” ou “dieta milagrosa”. O tratamento depende da causa:
Causa: H. pylori - Esquema tríplice ou quádruplo por 10-14 dias
- Confirmação de erradicação após 4-6 semanas
Causa: AINEs / anti-inflamatórios - Suspender ou substituir a medicação
- Protetor gástrico (IBP) por período definido
Causa: Álcool - Suspensão do consumo
- Protetor gástrico por curto período
Causa: Autoimune - Acompanhamento com endoscopia periódica
- Reposição de vitamina B12 (se necessário)
O que fazer e o que evitar nos sintomas
✅ Ajuda ❌ Piora
Refeições menores e mais frequentes Refeições volumosas
Identificar gatilhos individuais Anti-inflamatórios sem prescrição
Protetor gástrico sob orientação Álcool
Parar de fumar Tabagismo
Controle do estresse Automedicação prolongada
Gastrite x úlcera x câncer
Uma gastrite crônica mal tratada pode evoluir. A sequência é conhecida como cascata de Correa:
Gastrite crônica → Atrofia → Metaplasia intestinal → Displasia → Adenocarcinoma
Esse processo leva décadas, mas pode ser interrompido com tratamento adequado — especialmente a erradicação do H. pylori, que reduz drasticamente o risco de câncer gástrico.
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Atendimento particular com endoscopia digestiva alta e teste de H. pylori.
Dra. Cristiane Tiburtino | Gastroenterologista e Hepatologista | CRM-PB 7720 | RQE 7341 / 7598