Quem nunca sentiu aquela queimação no peito depois de uma refeição mais pesada? Azia eventual é comum e, isoladamente, não significa doença.
O problema começa quando a azia vira rotina — duas, três vezes por semana, atrapalhando o sono, a alimentação e a qualidade de vida. Aí não é mais “azia”. É doença do refluxo gastroesofágico (DRGE), e precisa de tratamento.
O que é refluxo, afinal?
Entre o esôfago e o estômago existe uma válvula chamada esfíncter esofágico inferior. Ela abre para o alimento passar e fecha em seguida. No refluxo, essa válvula não fecha direito, e o conteúdo do estômago (ácido, bile, comida parcialmente digerida) volta para o esôfago.
O problema: o esôfago não tem a proteção que o estômago tem contra o ácido. A parede dele é fina e sensível. Com o tempo, a exposição repetida ao ácido causa inflamação, feridas e, em casos avançados, até alterações pré-cancerosas.
Sintomas típicos (os que todo mundo conhece)
- Pirose (azia): queimação no peito, atrás do osso esterno
- Regurgitação: sensação de comida voltando à boca, gosto azedo ou amargo
- Dor torácica: pode confundir com angina ou infarto
- Tosse crônica: especialmente à noite ou ao deitar
Sintomas atípicos (os que ninguém associa ao refluxo)
Muita gente tem DRGE sem nunca sentir azia. Os sinais “silenciosos” incluem: - Tosse seca crônica (principal causa de tosse inexplicada)
- Rouquidão matinal (ácido irrita as cordas vocais durante a noite)
- Sensação de “bolo na garganta” (globus faríngeo)
- Sinusite de repetição
- Asma de difícil controle
- Erosão do esmalte dentário (o ácido sobe até a boca)
- Halitose (mau hálito)
Fatores que pioram o refluxo
Fator Por que piora
Obesidade abdominal Aumenta a pressão intra-abdominal, forçando a válvula
Alimentação gordurosa Gordura retarda o esvaziamento do estômago
Cafeína, álcool, cigarro Relaxam o esfíncter esofágico
Deitar logo após comer Gravidade ajuda o refluxo
Roupas apertadas Comprimem o estômago
Comer grandes volumes Distensão gástrica força a válvula
Quando fazer endoscopia?
A endoscopia digestiva alta é o exame padrão-ouro para avaliar o refluxo. Ela mostra: - Se há esofagite (inflamação visível)
- O grau da lesão (classificação de Los Angeles A-D)
- Se há esôfago de Barrett (alteração pré-cancerosa)
- Se há outras causas (hérnia de hiato, gastrite, H. pylori)
Nem todo mundo com refluxo precisa de endoscopia imediata. Mas é recomendada se você tem: - Sintomas há mais de 5 anos
- Idade acima de 45 anos
- Histórico familiar de câncer de esôfago ou estômago
- Sinais de alarme (dificuldade para engolir, perda de peso, anemia, vômitos frequentes)
- Resposta insatisfatória ao tratamento inicial
Tratamento: não é só omeprazol
O tratamento da DRGE tem três pilares:
- Mudanças de estilo de vida
- Perder peso (redução de 5-10% já melhora sintomas)
- Não deitar até 2-3 horas após comer
- Elevar a cabeceira da cama (travesseiro antirrefluxo)
- Evitar refeições volumosas
- Identificar gatilhos alimentares (café, fritura, tomate, cítricos, hortelã, chocolate)
- Medicação
- Inibidores de bomba de prótons (omeprazol, pantoprazol, esomeprazol) — os mais eficazes
- Procinéticos (facilitam o esvaziamento gástrico)
- Antiácidos (uso sintomático, não tratam a causa)
- Cirurgia (casos selecionados)
- Fundoplicatura: indicada para pacientes jovens, com hérnia de hiato grande, ou que não toleram medicação prolongada
Refluxo não tratado: o que pode acontecer? - Esofagite erosiva: feridas no esôfago
- Estenose esofágica: estreitamento que dificulta engolir
- Esôfago de Barrett: metaplasia intestinal — a maior complicação, considerada pré-cancerosa
- Adenocarcinoma de esôfago: raro, mas a complicação mais grave
O risco de câncer é baixo, mas aumenta com o tempo de exposição ao ácido não tratada.
Mitos comuns - “Omeprazol vicia” — Não vicia, mas não trata a causa. É controle, não cura definitiva.
- “Refluxo é só azia” — Como vimos, muitas pessoas têm DRGE sem azia.
- “Água com limão em jejum ajuda” — Piora, porque o limão é ácido e irrita ainda mais o esôfago.
- “Chá de boldo resolve” — Não há evidência. Boldo pode até sobrecarregar o fígado.
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Dra. Cristiane Tiburtino | Gastroenterologista e Hepatologista | CRM-PB 7720 | RQE 7341 / 7598