Existe diferença entre uma dor de estômago comum e uma úlcera? Sim, e ela pode ser sutil — até o momento em que a úlcera sangra ou perfura o estômago.
A úlcera péptica é uma ferida na parede do estômago ou do duodeno. Não é “gastrite forte” nem “nervoso”. É uma lesão real, com riscos reais, que precisa de diagnóstico e tratamento específicos.
O que é úlcera péptica?
Úlcera péptica é uma ferida (solução de continuidade) na mucosa que reveste o estômago (úlcera gástrica) ou o duodeno (úlcera duodenal). A ferida tem profundidade — diferente da gastrite, que é superficial.
As causas são basicamente duas: infecção por H. pylori e uso de anti-inflamatórios (AINEs). Juntas, respondem por mais de 90% dos casos.
Sintomas: como saber se é úlcera?
O sintoma mais característico é a dor em queimação ou pontada na boca do estômago, mas o padrão varia:
Úlcera duodenal (mais comum):
- Dor que melhora ao comer
- Dor que piora em jejum (madrugada, pela manhã)
- Dor que melhora com antiácidos ou alimentos
Úlcera gástrica: - Dor que piora ao comer (diferente da duodenal)
- Perda de peso (medo de comer por causa da dor)
- Náusea e vômito mais frequentes
Sinais de alarme que indicam complicação: - Sangue no vômito (vômito escuro, em borra de café)
- Fezes pretas e pastosas (melena)
- Dor súbita e intensa (perfuração)
- Tontura, palidez, queda de pressão (sangramento ativo)
Complicações: o perigo real
A úlcera não tratada pode evoluir para três complicações graves:
- Hemorragia digestiva (a mais comum)
Acontece quando a úlcera corrói um vaso sanguíneo. Pode ser discreta (anemia progressiva) ou grave (vômito com sangue, fezes escuras, instabilidade hemodinâmica). É a causa mais comum de hemorragia digestiva alta no Brasil. - Perfuração
A úlcera atravessa todas as camadas da parede do estômago ou duodeno. O conteúdo digestivo vaza para a cavidade abdominal. Causa dor súbita, intensa (“em facada”), abdômen rígido. É uma emergência cirúrgica. - Obstrução
A inflamação crônica e a cicatrização da úlcera podem estreitar a saída do estômago (piloro), causando vômitos, sensação de estufamento e incapacidade de se alimentar.
Diagnóstico: não basta suspeitar
Endoscopia digestiva alta é o exame padrão-ouro. Ela confirma:
- Presença e localização da úlcera
- Tamanho e profundidade
- Sinais de sangramento recente
- Necessidade de biópsia (para descartar câncer e identificar H. pylori)
Toda úlcera gástrica deve ser biopsiada para descartar malignidade. Úlceras duodenais raramente são cancerosas.
Tratamento definitivo
O tratamento tem dois braços principais, conforme a causa:
Se a causa é H. pylori: - Esquema de antibióticos por 10-14 dias + IBP
- Taxa de cicatrização > 90% após erradicação
- Cura definitiva da úlcera (não volta se o H. pylori não voltar)
Se a causa é AINEs (anti-inflamatórios): - Suspender o AINE (ou substituir)
- IBP por 4-8 semanas (tempo de cicatrização)
- Se não puder suspender, AINE + IBP de uso contínuo
Úlcera por estresse: - Rara fora do ambiente hospitalar
- Associada a queimaduras graves, trauma, sepse
- Tratamento com IBP endovenoso
Quanto tempo leva para cicatrizar?
Tipo Tempo de cicatrização
Úlcera duodenal sem complicação 4-6 semanas
Úlcera gástrica pequena 6-8 semanas
Úlcera gástrica grande (>2cm) 8-12 semanas
Úlcera complicada (sangramento) Cicatrização + tratamento da causa
A endoscopia de controle é feita após 8-12 semanas para confirmar cicatrização.
Mitos - “Úlcera é causada por estresse e comida apimentada” — Não. Estresse e alimentação podem piorar os sintomas, mas não causam úlcera.
- “Omeprazol cura úlcera” — Controla o ácido para a ferida cicatrizar, mas não trata a causa (H. pylori ou AINEs).
- “Leite alivia úlcera” — Alívio temporário. O leite estimula a produção de ácido depois de 1-2 horas, piorando o quadro a longo prazo.
- “Úlcera sempre volta” — Não, se a causa (H. pylori) for tratada adequadamente, a cura é definitiva.
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Dra. Cristiane Tiburtino | Gastroenterologista e Hepatologista | CRM-PB 7720 | RQE 7341 / 7598